Bem, quero dizer-lhes que em momento algum vou me desculpar, pois não fiz nada errado. Se vocês chegaram às conclusões ditas anteriormente, é por que houve certa vontade de que este sentido fosse obtido. E as duas respostas possíveis às indignações, podem ser: 1) Eu nunca li o livro de Wilson, apenas fiz uma comparação entre nossa jornada e a que Lênin fez, antes da Revolução de 1917. Porém, a utilização do título do livro foi proposital: eu sabia desde o começo de sua existência. Apesar de não ter lido, eu conheço sobre o que o livro trata e certamente uma pesquisa breve pelo Google também mostrará a você, leitor, que indiretamente há uma relação entre o livro não lido, a viagem não lembrada e a jornada que nos propomos fazer; 2) A foto da Estação da Luz serve para (re)lembrar, que toda imagem é polissêmica e que podemos atribuir sentidos específicos modificando o contexto em que a imagem se apresenta.
O que tem em comum em ambas as questões levantadas? A manipulação da “verdade” por parte de um autor (eu) mal intencionado (será mesmo?). Este é um fantasma no qual, quem trabalha com imagens, inevitavelmente vai encontrar pelo caminho. E não adianta negar: muitos dos preconceitos acadêmicos surgem justamente da perpetuação destes fantasmas. E a área de História é bastante sensível a estes preconceitos. Poucos são aqueles que além de sensibilidade, têm visão para as novas propostas que se abrem com a utilização deste novo tipo de documento.
Parte um – eu quero iludir, mas não quero enganar.
Antes mesmo de começar a esclarecer os caminhos que demarcamos anteriormente, gostaria de refletir sobre a natureza do que estamos nos propondo fazer. Com o tempo, o leitor perceberá, que esta reflexão não fez muito sentido prático para sua pesquisa sobre as salas de cinema na década de 1920. Então, já advirto, que o sentido desta reflexão é puramente simbólico e é através dos símbolos que temos que passar a nos comunicar.
Não sei se foi algo que tínhamos e perdemos ou foi algo que não tínhamos e desenvolvemos aos poucos, mas a comunicação através de símbolos, metáforas, imagens e representações fizeram e fazem parte do nosso mundo cultural e social. A certeza desta afirmação reside numa série de documentos visuais que os seres humanos, em qualquer civilização, produziram e deixaram como registro. Assim como as inscrições em vasos encontrados no Rio Negro e nos desenhos nas paredes da caverna de Lascaux.
Apesar de não sabermos ao certo o que significam, ou se realmente existe um significado, a possibilidade desta relação é que engrandece nosso imaginário e nosso conhecimento acerca do mundo que nos envolve. Infelizmente, em algum momento do século XIX, houve a desvalorização progressiva do imaginário como forma de conhecimento científico válido. Seus métodos e técnicas deveriam comprovar e separar o verdadeiro do falso, impondo uma visão de mundo utilitarista e desumana. Este foi o tipo de ciência que inspirou as metanarrativas, e algumas gerações de historiadores foram formadas a partir delas.
Ao longo do século XX, vários historiadores propuseram modificar a maneira como se olhava para o passado, e este olhar estava diretamente relacionado a dois fatores: às fontes documentais e às teorias explicativas. Digamos que houve uma quebra e dela surgiu uma diversidade de maneiras de concebemos a ciência histórica. Os símbolos passaram a ser vistos “com outros olhos”.
Nenhum comentário:
Postar um comentário